O silêncio foi quebrado numa marcha histórica

Thanks! Share it with your friends!

Close

Orgulho, não apenas gay, mas sobretudo orgulho por as pessoas poderem manifestar-se livremente e sem as ‘amarras’ do passado, numa terra fechada sobre si própria e os seus medos, o medo do desconhecido. Terá sido assim que sentiram as cerca de três centenas de pessoas que, ontem à tarde, fizeram a primeira marcha ostentando as cores do arco-íris, por algumas artérias do centro do Funchal, quebrando um silêncio e registando na história o direito a viverem em diversidade.

Iniciativa de algumas Organizações Não-Governamentais, a 1.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ do Funchal, decorreu de forma pacífica, desde a concentração, passando por algumas ruas centrais e mais movimentadas da tarde de sábado e terminando no Jardim Municipal, com muitas palavras de ordem e reivindicação dos direitos da população lésbica, gay, bissexual, transexual, intersexo e outros.

Muitos cartazes com mensagens claras contra a homofobia e a liberdade sexual e, tal como é habitual em todo o tipo de concentrações e manifestações, a Polícia de Segurança Pública esteve sempre a acompanhar e a ordenar o trânsito, mas também a fazer uma espécie de ‘raio x’ do evento, registando tudo para posterior relatório.

A marcha, como referido, correu de forma pacífica, inclusive despertando reacções positivas de muitos dos que estavam no seu trajecto, madeirenses, mas sobretudo turistas estrangeiros nas esplanadas e cafés. Mas também muitas ‘bocas’ em surdina, como é habitual em mentalidades ainda pouco despertas para a diversidade. Aliás, o apelo e a afirmação da diversidade foi bem patente nos vários discursos dos organizadores, a que se seguiu um arraial no Jardim Municipal com a actuação de alguns artistas.

‘Funchal Pride’ pelo direito à diferença

O denominado ‘Funchal Pride’ foi, de facto, momento histórico a que se associaram todos os que quiseram e não tiveram problemas em expressar a sua opinião e orientação sexual, e as palavras de ordem, com destaque para os “Nem menos, nem mais, direitos iguais”, “Anda para o meio, sai do passeio”, “Sim, sim, sim, somos assim” e “Mulheres unidas, nunca oprimidas”, entre outros, foram ditos e repetidos para todos ouvirem.

Emanuel Caires, coordenador do núcleo da Rede Ex Aequo no Funchal, criado em Junho do ano passado, lembra que “estas questões não são muito visíveis”, uma vez que as pessoas sofrem um conjunto de pressões sociais, laborais e até mesmo culturais, para que as suas identidades de género ou sexuais sejam postas dentro do armário, na invisibilidade, no isolamento e, muitas vezes, por consequência do insulto”, atirou, pedindo uma “discussão séria, rigorosa e sem preconceitos e discriminações”.

Activista histórico em mais um momento histórico

António Serzedelo, aos 72 anos de idade, presidente da Opus Gay, é o mais antigo activista da causa homossexual em Portugal e não quis faltar a um momento histórico. Ele que, nos primeiros dias de Maio de 1974, logo após a Revolução de 25 de Abril, foi coautor do manifesto “Liberdade para as Minorias Sexuais”, publicado a 13 de Maio no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias.

Serzedelo esteve no Funchal e na frente da marcha não se poupou a dizer o que pensa: “Na Madeira, lamento dizê-lo, mas o jardinismo perseguiu violentamente, com palavras, as minorias sexuais. Isto [o Funchal Pride] é uma machadada nesse jardinismo triunfante de amiguismo, graças a duas ou três forças.” Elogio à CMF, o PS e o BE, citou. E ainda atirou: “Nestes últimos anos a mentalidade tem mudado muito, sobretudo com a malta nova. Os homens e as pessoas da minha idade ainda estão muito no armário. Compreendo porque levamos 30 ou 40 anos com o fascismo em cima a dizer que era errado, que devíamos ter vergonha, que não deveríamos ter este comportamento e até com perseguições políticas, sociais, religiosas, etc.”

Além da Rede Ex Aequo, o ‘Funchal Pride’, contou com apoios e participação da Associação Abraço, da APF – Associação para o Planeamento da Família, da Fundação Portuguesa ‘A Comunidade Contra a Sida’, o grupo Mad le’s Femme, a Câmara Municipal do Funchal, do projecto de investigação Intimate, da UMAR – União Alternativa de Mulheres e Resposta, da referida Opus Gay e do NAIF – Núcleo da Amnistia Internacional do Funchal.

Cada vez mais unidos pelo mesmo sexo

Nunca se tinham celebrado tantos casamentos entre pessoas do mesmo sexo como no ano passado. Aliás, comparando com o ano anterior registou-se um aumento de 125%. Em 2015, face ao ano anterior, também tinha sido registado um aumento de 100% dos casamentos civis entre homens ou entre mulheres. O que significa que em dois anos o número dos também denominados casamentos gay dispararam 350%.

Na prática, os 18 casamentos entre pessoas do mesmo sexo (10 entre homens e 8 entre mulheres) representaram 2,1% dos 861 casamentos celebrados na RAM em 2016, contra 1% (4 para cada sexo) dos realizados (793) em 2015. Outra nota de realce é que o aumento de casamentos entre pessoas do mesmo sexo acompanha o aumento de casamentos entre sexos opostos ou total de casamentos celebrados na Região. Em 2014, a percentagem tinha sido de 0,53% (4 de um total de 753) e em 2013 de 1,38% (11 em 793), em 2012 de 0,36% (3 em 820), em 2011 de 1,1% (10 em 900) e 2010 de 0,87% (9 em 1.031), sendo que nestes dois primeiros anos deu-se o facto de se estar ainda no início da aplicação da nova lei para a igualdade.

Se a média nestes sete anos de nove casamentos entre pessoas do mesmo sexo se mantiver, ou mesmo se tivermos em conta que no ano passado bateu-se o recorde de uniões legais no registo civil entre dois homens ou duas mulheres, no total de 18, então podemos aferir que o número de casamentos do género já terá ultrapassado as sete dezenas ainda com 2017 por completar.

Nota para o facto de ao longo destes sete anos, apenas terem ocorrido três divórcios, o que dá uma média de um casamento rompido por cada 21 realizados nestes sete anos. No mesmo período de tempo, registaram-se 5.888 casamentos e 4.406 divórcios entre pessoas de sexo oposto, o que dá uma média de 1,33 casamentos por cada divórcio.

Article source: http://www.dnoticias.pt/impressa/hemeroteca/diario-de-noticias/o-silencio-foi-quebrado-numa-marcha-historica-HF2142797

  • Rating:
  • Views:13 views
  • Tags:
  • Categories: bazil 3

Comments

Write a comment

*